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Encontro em Fátima – 2011

No dia 8 de Outubro, reuniram-se em Fátima milhares de membros da campanha “Meu Imaculado Coração Triunfará” da Associação dos Custódios de Maria, juntamente com os participantes do Apostolado do Oratório do Imaculado  Coração de Maria, promovido pelos Arautos do Evangelho.

O encontro, presidido por D. Manuel Linda, bispo auxiliar de Braga, teve início com a recitação do terço junto à imagem de Nossa Senhora de Fátima. Seguiu-se a celebração Eucarística na igreja da Santíssima Trindade, abrilhantada pelo coro e banda dos Arautos do Evangelho, após a qual se realizou uma solene procissão de volta à capelinha para a saudação final.

HOMILIA NA MISSA

Ide às encruzilhadas e aos caminhos e a quantos encontrardes convidai-os para o banquete

           Esta ordem dada aos serviçais pelo rei que preparou um banquete nupcial em honra do seu filho continua a ressoar aos vossos e aos meus ouvidos, caros membros do Apostolado do Oratório dos Arautos do Evangelho. Só que agora, não é pronunciada por um qualquer rei, como na parábola, mas pelo único Rei e Senhor que criou o mundo e tem um plano de salvação para ele: deseja que toda a humanidade O reconheça como único Deus e Salvador e viva a mais sublime fraternidade, consequência do sentir-se filha do Pai comum. E sei bem que tendes dado crédito a esta palavra de envio: que tendes ido, em nome do Senhor Jesus, às famílias e aos diversos ambientes do mundo, anunciar a todos que Deus nos quer como sua família e que essa é condição de verdadeira felicidade, simbolizada no banquete da fartura, da alegria e do contentamento.

          Curiosamente, hoje não «ides». Mas «vindes»! E «vindes» sem contradizer a ordem original. Pelo contrário: vindes em função da ida. Vindes a este santuário da Cova da Iria para, na escuta do Evangelho, redescobrirdes que Cristo nos abre ao mundo e que o Reino por Ele anunciado é universal: é para todos. Mesmo para os que parecem mais arredios. Vindes para, depois desta tomada de consciência, colaborardes, com forças renovadas, nesse desígnio de Deus. Na certeza de que passa por aí a “nova evangelização”, para a qual todos estamos convocados, e que os Arautos do Evangelho assumem muito a sério, como a sua própria designação o refere.

          Então, vindes para irdes. E, de facto, este duplo movimento constitui a grande metáfora do cristianismo. Vindes para vos dardes conta de que “o Coração Imaculado de Maria”, no seguimento do que a Bíblia nos ensina, é o protótipo e o modelo de todo o coração crente, de todo o coração que ama Jesus e a sua Igreja. Porquê? Porque é nesse interior, tecido de oração e contemplação, que se situa a sede das faculdades psíquicas e espirituais, a fonte do verdadeiro pensar, do recto querer e do consequente agir. Por isso, mais que simples órgão biológico, o coração de Maria é como que a faculdade que recolhe as impressões suscitadas pelo exterior e as transforma em sentimentos de ternura e misericórdia. É o lugar da inteligência das coisas e da reflexão sobre as suas razões. É onde, depois de descobrir o que é verdadeiro, recto e bom, o ama, se lhe dedica inteiramente e o abraça, a ponto de fazer disso a verdadeira opção fundamental da sua vida e a razão do seu viver.

         Vindes, então, a Fátima tomar consciência disto para regressar e contagiar muitos com este belo anúncio. Para fazerdes notar a todos que Nossa Senhora, via de acesso a Jesus, é modelo de todo o crente e medida da mais verdadeira e pura fé cristã. Porque, como na Mãe da Igreja, a essência da fé passa por saber escutar o Senhor e colocar-se, humildemente, na disponibilidade de realizar a Sua vontade; porque, a exemplo dela, todo o cristão deve chegar àquela sublime espiritualidade que o faça sentir instrumento dócil nas mãos de Deus para actuar no mundo o Seu plano de salvação; porque o plano da graça passa pela tomada de consciência da vontade salvífica de Deus “que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2, 4); consequentemente, passa pela missão evangelizadora, pela oferta deste sinal de esperança segura e consolo efectivo.

          Vindes para irdes, para voltardes. Como Apóstolos. Aliás de quem retirais a designação: sois do «Apostolado do Oratório». Não só da oração. Mas do apostolado. Como sabeis, com esta palavra sempre se designou a função de anunciar a Boa Nova e “fazer discípulos de todos os povos” (Mt 28, 19), com vista à conversão a Jesus Cristo. E sabeis também que isto é missão da Igreja inteira, e não apenas do Papa, Bispos e Sacerdotes. Portanto, todos vós, como eu, cada um segundo a sua própria vocação e os dons particulares do Espírito Santo, sois chamados a esta missão de trabalhar afim de que todos os homens conheçam e aceitem a única mensagem que, efectivamente, nos pode salvar. Não vos contenteis, pois, com uma piedade intimista.

         Este Encontro realiza-se em Outubro, mês de forte ressonância missionária. Então, deixai que vos cite duas passagens da mensagem do Papa Bento XVI para o próximo Dia Mundial das Missões. A respeito da ligação estreita entre Igreja e missão, ele escreve: “O anúncio incessante do Evangelho vivifica também a Igreja, o seu fervor, o seu espírito apostólico, renova os seus métodos pastorais […]: «A missão renova a Igreja, revigora a sua fé e identidade cristãs, dá-lhe novo entusiasmo e novas motivações. É dando a fé que ela se fortalece!» (João Paulo II, Enc. Redemptoris missio, 2)”. E sublinha bem que esta é uma tarefa de todos e de cada um dos filhos da Igreja: “A missão universal envolve todos, tudo e sempre. O Evangelho […] é um dom a partilhar, uma boa notícia a comunicar. E este dom-empenho está confiado não só a algumas pessoas, mas a todos os baptizados, os quais são «raça eleita… nação santa, povo adquirido» (1 Pd 2, 9), para que proclame as suas obras maravilhosas”.

          E, porque estamos a falar de anúncio, já agora, recordai-vos que estamos na Semana Nacional da Educação Cristã. No seguimento do mote que nos é proposto para ela –“Família, transmissão e educação da fé– não vos esqueçais de viver e anunciar verdades hoje tão ignoradas: que a Igreja acredita no desígnio de Deus sobre a família; que conhece o alcance do Sacramento do Matrimónio; que defende a importância estruturante da família; que sabe bem do seu papel insubstituível na sociedade e a sua missão na Igreja; enfim, que, por tudo isso, a considera “célula fundamental da sociedade” e verdadeira “Igreja doméstica”.

          Não deixa de ser curioso que, segundo a parábola do Evangelho de hoje, muitos recusem a chamada ao banquete que lhes é oferecido gratuita e amorosamente. É o mistério da liberdade humana. É o binómio amor/liberdade, sob cujo signo se rege a relação Deus/homem. Se falta o amor, o homem não conhece outra realidade que não seja a recusa e a tentativa desajeitada de arranjar justificações. Mas Deus respeita a sua liberdade. E não desencoraja: aceita insucessos parciais, mas mantém viva a aliança com a humanidade. Por isso, a sala do banquete acaba por se encher. Como já antevia Isaias, ao anunciar que no Monte Sião, Deus há-de preparar um banquete de pratos suculentos “para todos os povos” (Is 25, 6). Por isso, nada de desânimo, porque o plano de Deus há-de cumprir-se, não obstante a liberdade humana. E com ela.

         Estamos no santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima e no mês do Rosário. Aprendamos dela a vivência das três dimensões onde assenta a Igreja de que Ela é modelo: a escuta da Palavra e seu anúncio; a celebração litúrgica da fé; a vivência de uma caridade sem limites. Se levardes bem vivo o propósito de vos comprometerdes nesta tríplice dimensão, valeu a pena a vossa vinda a Fátima.

                                                               + Manuel Linda

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